Filhos adultos a romper laços com os pais, 1/4
Olá a todos,
Há atualmente uma tendência crescente de filhos adultos cortarem contacto com os seus pais. E o problema é mais profundo do que lugares vazios em aniversários e datas especiais; há um plano espiritual mais profundo e mais maligno por detrás deste movimento.
Esta série examina esta tendência, identificando-a, definindo-a, estudando as razões e oferecendo algumas soluções. Iremos também analisar exemplos bíblicos, como o Filho Pródigo e, a divisão entre David e o seu filho Absalão, talvez o maior exemplo na Bíblia.
Nos EUA, 27% dos filhos adultos estão afastados de um ou de ambos os pais (Universidade de Cornell). Desses 27%, 11% estão afastados da mãe e 26% estão afastados do pai. Os 63% restantes (dentro desses 27%) cortaram contacto com ambos os pais.
Se houve abuso genuíno, claro que precisam de se afastar para proteger a sua saúde mental e, por vezes, física. Para os pais que não foram abusivos, é importante que examinem a forma como criaram os seus filhos, identifiquem fatores que contribuíram para a situação e estejam dispostos a admitir aos seus filhos afastados os seus erros e falhas.
Este problema existe em parte devido ao crescimento das redes sociais.
Hoje, a geração mais jovem vê cortar relações com os pais como parte do seu crescimento pessoal e cuidado de si mesmos. E por “cuidado de si mesmos” refiro-me a protegerem-se de qualquer pessoa que os desafie. Cortam relações com quem discorda deles ou os obriga a refletir sobre o que acreditam e porquê. As redes sociais criam um mundo narcisista, levando-os a pensar que a vida gira apenas à volta deles, sem valorizar relações inter-geracionais. Além disso, o sistema educativo (nos EUA) não ensinou as crianças a pensar, raciocinar, debater e considerar diferentes perspetivas. Ensinaram-nas a reagir emocionalmente, não a raciocinar.
Esta geração está a ser ensinada a ver os pais como inimigos e a substituí-los por qualquer pessoa que lhes diga aquilo que querem ouvir. Em contraste, Paulo escreve que honrar os pais vem com uma promessa: “para que te vá bem e vivas muito tempo sobre a terra.” Efésios 6:2-3.
Absalão corta comunicação com o pai, o Rei David
Em II Samuel 15:1-6, Absalão sentava-se à porta da cidade e tomava decisões e julgamentos que normalmente caberiam ao rei. Ele dizia às pessoas aquilo que queriam ouvir, trocando lisonjas que alimentavam o ego, e no versículo 6 diz-se: “Assim Absalão roubou o coração dos homens de Israel.”
Um filho adulto que corta contacto com os pais, como Absalão fez, reúne à sua volta pessoas que pensam como ele. Reúne pessoas que concordam facilmente com a culpabilização dos pais. No versículo 4, Absalão dizia: “Quem me dera ser juiz na terra… então haveria justiça.”
As suas ações minaram a autoridade do pai, desonrando-o, e David observava tudo, sem dúvida orando por ele — algo que percebemos pela forma como David chorou e lamentou quando Absalão morreu.
Filhos adultos que cortam contacto com os pais rodeiam-se de pessoas que apelam ao seu ego, dizendo-lhes que têm razão, que as suas ações são justificadas. Tal como Absalão, minam tudo aquilo que os pais lhes ensinaram.
De repente, percebem que estão sozinhos, mesmo rodeados de pessoas com ideias semelhantes. Sozinhos apesar de estarem cercados de pessoas que afirmam amá-los — e algumas certamente amam —, mas frequentemente surge alguém mal-intencionado que usa estas vulnerabilidades para manipular e controlar, ao mesmo tempo que afirma amar e querer o melhor para eles.
Lembrem-se: assim como Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança, também aqueles usados pelo diabo tentarão moldar outros à sua própria imagem e semelhança. É assim que a manipulação funciona — tornar os outros semelhantes ao manipulador, dando-lhe controlo total.
Vivemos num mundo em que, se um pai diz que não, ou estabelece limites firmes e expectativas, isso é rotulado de abuso ou trauma. Se um pai não valida e concorda com todos os pensamentos e sentimentos do filho, passa a ser visto como abusivo, controlador, tóxico ou perigoso. As redes sociais dizem-lhes isto, e muitos influenciadores ecoam essas ideias, reforçando as suas emoções frágeis enquanto endurecem ainda mais os seus corações.
Discussões, acontecimentos e regras da infância levam os filhos adultos a reescrever a sua história
Esta reescrita consiste em distorcer acontecimentos fora do seu contexto. Exemplo: Quando o meu pai se sentou connosco, os quatro filhos, para nos dizer que ele e a nossa mãe se iam divorciar, disse: “Vou divorciar-me da tua mãe e vou divorciar-me de vocês. Não vou estar nos jogos, aniversários, feriados… Vou sair de casa… Não vou estar aqui…”
Na altura, e durante anos, eu só conseguia ver a dor causada por aquelas palavras a nós os quatro, eu com 11 anos, e os meus irmãos com 9, 7 e 5 anos. Quando cresci, percebi que ele não estava a tentar ser cruel; estava a tentar explicar o que significava o divórcio para crianças que não faziam ideia do que era. Mas naquela altura, aquelas palavras foram recebidas como rejeição e dor.
Quando os filhos adultos são ensinados a ver conflitos familiares como abuso, reinterpretam memórias através da crença de que sofreram abuso. Cortar comunicação raramente é sobre pais maus e filhos bons. Na verdade, trata-se da forma como a dor molda a visão da vida.
Estes filhos adultos filtram a relação com os pais através das suas próprias mágoas, e os pais muitas vezes filtram os seus conselhos através das mágoas deles. Não há pais perfeitos, nem filhos perfeitos. É aí que entram a graça de Deus, a sabedoria, o carácter e o Espírito de Deus na dinâmica familiar — se Lhe for permitido. É aqui que os pais devem ser transparentes e vulneráveis com os filhos, quando lhes for dada essa oportunidade.
Para os pais que passaram ou estão a passar por isto:
O vosso filho vos culpa por dores que nunca tiveram intenção de causar. Ser “cancelado” pelo vosso filho distorce o amor que deram, transformando-o em algo mais sombrio, mal compreendido e fora de contexto. Eles não veem as vezes em que estiveram presentes. Não veem os sacrifícios. Veem a história filtrada pela dor que eles criaram e repetiram tantas vezes que agora lhes parece real.
O pior é que, quando acreditam nessa história, qualquer comunicação normal e inofensiva dos pais passa a ser filtrada por essa memória distorcida. Isso significa que todas as recordações se tornam algo irreal ou reescritas na mente e emoções deles.
Assim, um momento que para os pais foi banal torna-se, através dessa dor, prova de que a versão distorcida é verdadeira. Reforça a perceção errada. Quando vos confrontam, acabam a lutar contra uma versão de vocês que nunca existiu, que só existe na mente deles. A imagem que têm de vocês tornou-se uma fortaleza — e só eles podem derrubá-la.
Podemos perguntar aos nossos filhos adultos: Que vantagem tirámos nós disto, senão amar-vos?
Qual foi o nosso ganho ao trazer-vos ao mundo? Tudo o que os pais fazem é sem garantia de recompensa ou gratidão. Tudo o que se derrama numa criança — amor, paciência, tempo, energia, preocupação, sacrifícios — é feito sem qualquer promessa de retorno. Os pais fazem-no sabendo que a criança crescerá e terá uma vida independente. Sabiam desde o início que chegaria o momento de recuar e deixá-la viver por si, sem precisar mais dos pais.
E a maior parte disso a criança nem se lembra. Não faz ideia das noites sem dormir, do stress, do medo, das escolhas feitas pelos pais em favor do conforto e segurança da criança em vez do seu próprio conforto. Nada foi feito esperando algo em troca.
Um pai pode dizer ao filho adulto: Pergunta-se a ti próprio esta difícil pergunta. Porque fizemos tudo isso? Fizemos porque és nosso filho. Por isso, antes de nos culpares por imperfeições reais ou imaginadas, e antes de te convenceres de que te devíamos perfeição, pergunta-te: o que é que ganhámos nós? Amámos-te, estivemos sempre presentes e continuamos a amar-te. Que outra razão houve, além do amor?
Voltaremos ao tema na próxima semana. Não desistas desse filho! Nem desse pai!
Até para a semana, bênçãos,
John Fenn
cwowi.org — email: [email protected]
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